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Christo, e que seria elle o primeiro que, pela resurreição dos mortos, havia de annunciar a luz ao Povo e aos gentios.

Paulo é interrompido por Festo.

Adduzindo elle estas cousas em sua defesa, disse Festo em alta voz: Estás louco, Paulo; as muitas 25 letras tiram-te o juizo. Porém Paulo disse: Não estou louco, potentissimo Festo, mas profiro pala26 vras de verdade e de perfeito juizo. Porque destas cousas tem conhecimento o rei a quem falo tambem com franqueza, como persuadido estou de que nada disto lhe é occulto; pois isto não foi feito a um 27 canto. Crês, ó rei Agrippa, os prophetas? Eu sei 28 que crês. E Agrippa disse a Paulo: Com pouco 29 me persuades a fazer-me christão. Paulo respondeu: Prouvera a Deus que com pouco ou com muito não somente tu, mas ainda todos os que hoje me ouvem, se tornassem taes qual eu sou, menos estas cadeias.

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Paulo teria sido solto, se não tivesse appellado para Cesar.

E o rei levantou-se, e tambem o governador e 31 Bernice, e os que estavam sentados com elles; e havendo-se retirado, falavam uns com os outros, dizendo: Este homem nada tem feito que mereça 32 morte ou prisão. Agrippa disse a Festo: Elle podia ser solto, se não tivesse appellado para Cesar.

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Paulo é enviado para a Italia.

Como fosse determinado que navegassemos para a Italia, entregaram Paulo e alguns outros presos a um centurião chamado Julio, da cohorte 2 Augusta. E embarcando num navio de Adramyttio, que estava prestes a costear as terras da Asia, fizemo-nos ao mar, estando comnosco Aristarcho, mace3 donio de Thessalonica; e no dia seguinte chegámos a Sidon, e Julio, usando de bondade para com Paulo, permittiu-lhe ir ver os seus amigos e receber bom

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315 4 acolhimento. Dalli fazendo-nos ao mar, fomos navegando a sotavento de Chypre, por serem contrarios os ventos e, tendo atravessado o mar que banha a Cilicia e a Pamphylia, chegámos a Myrra, cidade da 6 Lycia. O centurião, achando alli um navio de Alexandria, que estava em viagem para a Italia, fez-nos 7 embarcar nelle. E navegando vagarosamente muitos dias e tendo chegado com difficuldade á altura de Cnido, não nos permittindo o vento ir mais adeante, navegámos a sotavento de Creta, na altura 8 de Salmone; e costeando com difficuldade, chegámos a um logar chamado Bons Portos, perto do qual estava a cidade de Laséa.

Os perigos da viagem.

9 Decorrido muito tempo, e tendo-se tornado a navegação perigosa, por haver já passado o jejum1, 10 Paulo avisava-os, dizendo-lhes: Senhores, vejo que a viagem vae ser com avaria e muita perda, não somente da carga e do navio, mas tambem das nossas 11 vidas. Mas o centurião dava mais credito ao piloto 12 e ao mestre do navio do que ao que Paulo dizia. E não sendo o porto proprio para invernar, os mais delles foram de parecer que se fizessem dalli ao mar, a ver se de algum modo podiam chegar a Phenix, e ahi passar o inverno, visto ser um porto de Creta, 13 o qual olha para o nordeste e para o sudoeste. Soprando brandamente o vento sul e pensando elles ter alcançado o que desejavam, depois de levantarem ancora, iam muito de perto costeando Creta. 14 Mas pouco tempo depois desencadeou-se do lado da ilha um tufão de vento que é chamado Euro-aquilão, e sendo arrebatado o navio e não podendo resistir ao vento, cessámos a manobra e nos fomos deixando 16 levar. Passando a sotavento duma ilhota chamada 17 Clauda, mal podemos recolher o bote, e tendo-o içado, valiam-se de todos os meios, cingindo com

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1 Observado no mez de Setembro.

cabos o navio; e temendo que dessem na Syrte, arrearam todos os apparelhos e assim iamos sendo le18 vados pelo vento. E como fossemos agitados por

uma violenta tempestade, no dia seguinte começa19 ram a alijar a carga ao mar, e ao terceiro dia nós 20 mesmos lançámos fóra os apparelhos do navio. E não apparecendo por muitos dias nem o sol, nem as estrellas, e batidos por uma grande tempestade, tinhamos afinal perdido toda a esperança de sermos 21 salvos. Tendo elles estado muito tempo sem comer, levantando-se Paulo no meio delles, disse: Senhores, devieis, na verdade, ter-me attendido, e não ter par22 tido de Creta e soffrido esta avaria e perda. E agora vos exhorto que tenhaes coragem; pois nenhuma vida se perderá entre vós, mas somente o 23 navio. Porque esta noite me appareceu o anjo do 24 Deus a quem pertenço e a quem tambem sirvo, dizendo: Não temas, Paulo; é necessario que compareças perante Cesar, e Deus te ha dado todos os 25 que navegam comtigo. Pelo que tende coragem, varões, porque creio em Deus que assim succederá, 26 como me foi dito. Porém é necessario que vamos dar a uma ilha.

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O naufragio.

Quando chegou a decima quarta noite, sendo nós impellidos de uma banda para outra no mar Adriatico, pela meia noite suspeitaram os marinheiros 28 que se avizinhavam da terra. E lançando a sonda, acharam vinte braças; passando um pouco mais adeante e lançando a sonda outra vez, acharam 29 quinze; e temendo que talvez fossemos dar em praias pedregosas, lançaram da popa quatro ancoras, e 30 estavam anciosos que amanhecesse. Procurando

os marinheiros fugir do navio, e tendo arreado o bote no mar com o pretexto de irem largar ancoras da 31 proa, disse Paulo ao centurião e aos soldados: Se estes não ficarem no navio, não podereis salvar-vos.

32 Então os soldados cortaram as cordas do bote e 33 deixaram-n-o ir. Emquanto amanhecia, rogava Paulo a todos que tomassem alimento, dizendo: Hoje é o decimo quarto dia em que esperando estaes 34 em jegum, şem nada comer. Pelo que vos rogo que comaes alguma cousa; porque disto depende a vossa segurança; pois nenhum de vós perderá um 35 só cabello da cabeça. Tendo dito isto e tomando

pão, deu graças a Deus na presença de todos e, 36 depois de o partir, começou a comer. Todos cobra37 ram animo e se pozeram tambem a comer. E esta

vam no navio duzentas e setenta e seis pessoas ao 38 todo. E saciados com a comida, começaram a 39 alliviar o navio, lançando trigo ao mar. Quando

amanheceu, não conheciam a terra, mas avistavam uma enseada com uma praia, e consultavam se po40 deriam encalhar alli o navio. Desprendendo as ancoras, abandonaram-n-as no mar, soltando ao mesmo tempo os cabos dos lemes; e içando ao vento o 41 traquete, foram-se dirigindo para a praia. Porém indo ter a um logar onde duas correntes se encontravam, encalharam o navio; e a proa, arrastada sobre a terra, ficou immovel, mas a popa desfazia42 se com a violencia das ondas. O parecer dos soldados era que se matassem os presos, para que nenhum 43 delles se lancasse a nado e fugisse; mas o centurião, querendo salvar a Paulo, impediu-lhes que fizessem isto e mandou que os que soubessem nadar, fossem os primeiros a se lançar ao mar e alcançar a terra; 44 e aos demais que se salvassem, uns em taboas, e outros em destroços do navio. E assim todos escaparam a terra salvos.

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A ilha de Malta.

Estando já salvos, soubemos então que a ilha 2 se chamava Malta. Os indigenas trataram-nos com muita humanidade, porque, accendendo uma fogueira, acolheram-nos a todos por causa da chuva

3 que cahia e por causa do frio. Tendo Paulo ajuntado e posto sobre a fogueira um feixe de gravetos, uma vibora, fugindo por causa do calor, mordeu-lhe 4 a mão. Quando os indigenas viram o reptil pendente da mão de Paulo, diziam uns para os outros: Certamente este homem é homicida, pois embora 5 salvo do mar, a Justiça não o deixou viver. Porém elle, sacudindo o reptil no fogo, não soffreu mal 6 algum; mas elles esperavam que elle viesse a inchar cu a cahir morto de repente. Porém tendo esperado muito tempo e vendo que nada de anormal lhe succedia, mudando de parecer, diziam que era elle um deus.

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Publio hospeda a Paulo.

Ora na vizinhança daquelle logar havia algumas terras pertencentes ao homem principal da ilha, chamado Publio, o qual nos recebeu e hospedou com 8 muita bondade por tres dias. Estando doente de cama com febre e dysenteria o pae de Publio, Paulo foi visital-o e, tendo feito oração, impoz-lhe as mãos e o curou. Feito isto, os outros doentes da ilha 10 vinham tambem e eram curados, e estes nos distinguiram com muitas honras e, ao partirmos, pozeram a bordo o que nos era necessario.

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E 23

A continuação da viagem.

No fim de tres mezes fizemo-nos ao mar em um navio de Alexandria, que havia invernado na ilha, o 12 qual tinha por insignia Castor e Pollux. E tocando em Syracusa, ficámos ahi tres dias, donde bordejando, chegámos a Rhegio. No dia seguinte soprou o vento sul, e chegámos em dois dias a Puteoli; 14 onde tendo achado alguns irmãos, estes nos rogaram que ficassemos com elles sete dias; e assim fomos a 15 Roma. E tendo ahi os irmãos sabido noticias nossas, vieram ao nosso encontro até a Praça de Appio e as Tres Vendas, e Paulo, quando os viu, deu graças a Deus e cobrou animo.

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