D. Inez de Castro: novella

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Livraria Portugueza de J.P. Aillaud, 1837 - 243 pages
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Page 224 - Nos saudosos campos do Mondego, De teus formosos olhos nunca enxuto. Aos montes ensinando e às ervinhas O nome que no peito escrito tinhas. Do teu Príncipe ali te respondiam As lembranças que na alma lhe moravam, Que sempre ante seus olhos te traziam, Quando dos teus formosos se apartavam; De noite, em doces sonhos que mentiam, De dia, em pensamentos que voavam.
Page 228 - Assi como a bonina, que cortada Antes do tempo foi, candida e bella, Sendo das mãos lascivas maltratada Da menina, que a trouxe na capella, O cheiro traz perdido, ea cor murchada : Tal está morta a pallida donzella, Seccas do rosto as rosas, e perdida A branca e viva cor, co'a doce vida.
Page 226 - Mova-te a piedade sua e .minha, Pois te não move a culpa que não tinha.
Page 225 - Traziam-na os horríficos algozes Ante o Rei, já movido a piedade; Mas o povo, com falsas e ferozes Razões, à morte crua o persuade. Ela, com tristes e piedosas vozes, Saídas só da mágoa e saudade Do seu Príncipe e filhos, que deixava, Que mais que a própria morte a magoava...
Page 229 - As filhas do Mondego a morte escura Longo tempo chorando memoraram, E, por memória eterna, em fonte pura As lágrimas choradas transformaram.
Page 224 - De outras belas senhoras e Princesas Os desejados tálamos enjeita, Que tudo, enfim, tu, puro amor, desprezas Quando um gesto suave te sujeita. Vendo estas namoradas estranhezas, O velho pai sesudo, que respeita O murmurar do povo ea fantasia Do filho, que casar-se não queria...
Page 228 - Taes contra Ignez os brutos matadores No collo de alabastro, que sostinha As obras, com que Amor matou de amores Aquelle, que despois a fez Rainha, As espadas banhando, e as brancas flores, Que ella dos olhos seus regadas tinha, Se encarniçavam, fervidos e irosos, No futuro castigo não cuidosos.
Page 224 - Naquele engano da alma, ledo e cego, Que a Fortuna não deixa durar muito, Nos saudosos campos do Mondego, De teus formosos olhos nunca enxuito, Aos montes ensinando e às ervinhas O nome que no peito escrito tinhas.
Page 226 - Se já nas brutas feras, cuja mente Natura fez cruel de nascimento, E nas aves agrestes, que somente Nas rapinas aerias tem o intento, Com pequenas crianças vio a gente Terem tão piedoso sentimento, Como co'a mãi de Nino já mostraram, E co'os irmãos, que Roma edificaram : cxxvii.
Page 227 - Queria perdoar-lhe o Rei benino, Movido das palavras, que o magoam; Mas o pertinaz povo e seu destino (Que desta sorte o quiz) lhe não perdoam.

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